domingo, 13 de agosto de 2017

Castrati: a história dos garotos castrados para que possuíssem características únicas na voz

Desde 1500, uma prática nada convencional começou a se popularizar entre líderes de igrejas e regentes de corais. Tratava-se da castração com o intuito de criar um estilo vocal diferenciado em jovens cantores. Com o bloqueio da dihidrotestosterona, que faz as cordas vocais masculinas crescerem em 63% e engrossa a tireoide, os jovens passavam a ter vozes femininas.

Geralmente recrutados aos doze anos, os garotos castrados eram conhecidos como “Castrati” (no singular em italiano, “castrato”), geralmente famílias e regiões pobres depositavam a esperança no talento do garoto. Em 1589, os castrati foram cantar para o Papa na Capela Sistina, mostrando a popularização da prática na época.

Martha Feldman escreveu um livro sobre os cantores Castrati, e, segundo ela, o procedimento realmente fazia a diferença para os rapazes “Havia alto-sopranos, mezzos, e altos, vozes estridentes e doces, vozes altas e maduras, gargantas mais e menos flexíveis, homens muito altos e muito baixos”, conta em um trecho do livro. Eles cantavam em igrejas, tribunais, pontos turísticos, e alguns aposentados davam aulas de música e compunham. Alguns eram cantores de baixa renda que passaram sua vida fazendo shows em cidades pequenas, e outros construíram suas carreiras cantando para ministros em cortes reais. Tudo isso a partir de uma única operação.

A operação



Oficialmente a lei da Igreja proibia a amputação de qualquer órgão, exceto para salvar vidas. Como a prática era ilegal, não há muitos registros detalhados sobre a operação e os cirurgiões permaneceram desconhecidos. Alguns garotos foram enganados pelos pais, que alegavam casos de saúde para a cirurgia. Cirurgiões tentavam usar alguma anestesia, mas elas eram perigosas.

Uma fonte anônima escreveu que os médicos, “davam uma certa quantidade de ópio para o paciente da castração, realizando a operação enquanto eles estavam dopados, mas observou-se que a maioria daqueles que tinham sido operados desta maneira, morriam por complicações das drogas usadas como anestésico”. Na maioria das vezes, os meninos recebiam um banho quente, em seguida, sua artéria carótida era comprimida até que eles praticamente entrassem em coma.

Outra versão do procedimento começaria com um banho frio, ou até mesmo um banho de leite, para entorpecer a área. O procedimento não envolve a amputação. A maioria dos médicos simplesmente abria o escroto e cortava os cordões espermáticos, os canais deferentes e as suas artérias circundantes. Sem o suporte do resto do tecido, os testículos atrofiavam.

Os efeitos da castração

Os efeitos dependiam de algumas condições, como a idade da criança, a competência do cirurgião e as peculiaridades do corpo humano. O filme Farinelli retrata um cantor homônimo muito alto e magro, o que é parcialmente verdade. A maioria dos cantores ganhava protuberâncias em torno do rosto, peito e coxas.

Outras características típicas de um Castrati eram a total falta de barba e a resistência à calvície.

A altura de Farinelli era, para muitas pessoas modernas, um efeito contraditório da castração. Meninos poderiam ter um surto de crescimento durante a puberdade, mas a falta de hormônios faria os castrati serem menores do que os homens médios. O efeito mais comum da castração era estatura incomum: as crianças têm placas epifisárias – “placas de crescimento” – em cada extremidade dos ossos e, durante a puberdade, elas são substituídas por tecido normal, enquanto que as placas de crescimento de um Castrati nunca “fecham”, ou seja, podem continuar crescendo.

A castração também foi associada com maior crescimento do peito, da mandíbula e até do nariz. A voz de um menino bem treinado para cantar era apoiada pelo peito e pelos pulmões, pois a “câmara de ressonância” era maior do que a média, dando aos melhores cantores não apenas uma voz de alta potência, como também sustentação.



Os inconvenientes da castração foram sentidos na fase posterior da vida. Os grandes ossos deixaram muitos Castrati com osteoporose e um corpo maior do que a média, comprimindo seus órgãos.

O castrati Farinelli era o mais famoso. Ele viveu em 1700, mas ainda causava polêmica em 2006, quando um grupo de pesquisa exumou seus restos mortais e os examinou. O que eles encontraram, juntamente com o comprimento dos ossos, foi uma acumulação de osso ao longo da testa, o que indica uma condição chamada hiperostose frontal interna (HFI) – mais comum em mulheres do que em homens, mas ninguém conhece suas causas. De acordo com alguns profissionais médicos, HFI afeta 12% da população e é quase sempre benigna. Apenas em 1% pode causar dores de cabeça terríveis, depressão e outros problemas mentais.

O fim dos Castrati

A prática começou a perder sua popularidade no final dos anos 1700, mas teve uma queda muito lenta. Eles ainda cantavam em igrejas, mas em 1800 já não eram bem vistos em óperas ou em clubes populares. O último cantor castrato da Capela Sistina foi Alessandro Moreschi, que se aposentou em 1913. Em seu auge, ele era conhecido como o “Anjo de Roma”. Algumas gravações dele cantando em 1902 ainda podem ser encontradas em arquivos raros.

Texto: Bruno Rizzato
Publicado no site Jornal Ciência em 19/01/2016. 

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Connla e a donzela encantada



Connla do cabelo de fogo era filho de Conn das Cem lutas. Um dia, quando se encontrava ao lado do pai no alto do Usna, viu uma jovem donzela com um estranho traje vindo em sua direção.

- De onde você vem, ó donzela? disse Connla.

"Eu venho das planícies dos Sempre Vivos", disse ela, "ali onde não há morte nem pecado. Lá sempre é feriado, e não precisamos da ajuda de ninguém para sermos felizes. E em todo nosso prazer não temos brigas. E como temos nossas casas nas redondas colinas verdes, os homens nos chamam de povo da colina."

" Com quem você está falando, meu filho?, disse Conn, o rei.

Então a donzela respondeu, Connla está falando com uma bela e jovem donzela, que não tem morte nem idade avançada à sua espera. Eu amo Connla, e agora o chamo para ir à planície do Prazer, Moy Tell, onde Boadag é rei há muito tempo, e onde não tem havido queixas e nem tristezas desde que ele assumiu o reinado. Oh venha comigo Connla do cabelo de fogo, ruivo como o poente, e com a pele bronzeada. Uma coroa encantada o espera para adornar sua bela face e seu corpo real. Venha, e que a sua beleza nunca se desvaneça, nem sua juventude, até o último dia terrível do Juízo Final.

O rei, com medo do que ouvira e do que a donzela dissera, apesar de não poder vê-la, chamou em voz alta seu druida, de nome Coran.

"Oh Coran dos muitos encantamentos", disse ele "e da astuta magia, estou pedindo sua ajuda. A tarefa é grande demais para minha capacidade e minha astúcia, maior do que qualquer uma imposta a mim desde que assumi o reinado. Uma donzela invisível veio ao nosso encontro, e através de seu poder quis levar de mim meu filho muito querido e amado. Se você não me ajudar, ele será levado pelas artimanhas e feitiços femininos.

Então Coran, o Druida deu um passo à frente e pronunciou algumas palavras encantadas na direção do local em que a voz da donzela fora ouvida. Ninguém mais ouviu a voz da jovem, e Connla também nunca mais a viu. Mas ao desaparecer mediante o poderoso encanto do druida, ela atirou uma maçã para Connla.

Por um mês inteiro, à partir daquele dia, Connla não quis mais comer  nem beber nada, a não ser aquela maçã, Mas sempre que ele a mordia, o pedaço que ficava faltando crescia novamente mantendo-a sempre inteira. E o tempo todo crescia dentro dele um anseio e um grande desejo pela donzela que havia visto.

Mas quando chegou o último mês de espera, Connla ficou ao lado do rei, seu pai, na planície de Arcomin, e novamente ele viu a donzela vir ao seu encontro e lhe falar.

" É um lugar glorioso, esse que Connla possui entre os mortais de vida breve, que aguardam o dia da morte. Mas agora o povo da vida, os que vivem para sempre, lhe pedem e rogam para que venha a Molly Mell, a planície do prazer, pois aprenderam a conhecê-lo, vendo-o em sua casa entre seus entes queridos.

Quando Conn, o rei ouviu a voz da donzela chamou seus homens em voz alta e disse:

"Venha logo, meu druida Coran, pois vejo que hoje ela está de novo com o poder da fala."

Então a donzela disse: " Ó poderoso Conn, guerreiro das cem lutas, o poder do druida não é muito bem-vindo, tem pouca honra nesse país poderoso, com uma população tão honrada. Quando a lei chegar, acabará com os encantamentos mágicos dos druidas, que vê dos lábios do falso demônio negro".

Então Conn, o rei observou que, desde que a donzela chegara, Connla não falara com ninguém. Por isso, Conn das cem lutas disse a ele:

" É sua opinião também o que a mulher está dizendo meu filho?"

"É difícil pra mim, disse Connla; amo meu povo sobre todas as coisas, mesmo assim, um grande anseio pela donzela me domina".

Quando a donzela ouviu isso, respondeu dizendo: "O oceano não é tão forte quanto as ondas do seu anseio. Venha comigo em minha curragh, a brilhante, deslizante canoa de cristal. Logo alcançaremos o reino de Boadag. Vejo o brilhante sol se pondo e mesmo longe como está, podemos chegar lá antes que escureça. Lá estará, também, outro país que vale a jornada, um país acolhedor para todos que o buscam. Só esposas e donzelas o habitam. Se você quiser, podemos procurá-lo e viver lá sozinhos, juntos e felizes."

Quando a donzela parou de falar, Connla do cabelo de fogo fugiu deles e saltou dentro da curragh, a canoa de cristal brilhante e deslizante. E então todos eles, rei e corte, viram-na  deslizar sobre o mar brilhante em direção ao sol poente, afastando-se cada vez mais , até os olhos não conseguirem mais vê-la.

Connla e a donzela encantada abriram caminho  no mar, nunca mais foram vistos, e ninguém nunca soube onde chegaram.

Fonte: Celtic Fairy Tales
Tradução: Inês A. Lohbauer

domingo, 23 de abril de 2017

Manuel Francisco Isaac Albéniz - Compositor e pianista espanhol

Compositor nacionalista espanhol nascido em Camprodón, província de Gerona, um dos mais originais representantes do nacionalismo musical de seu país em fins do século XIX. 

Com apenas quatro anos deu seu primeiro recital de piano em Barcelona, e a partir dos dez realizou numerosas turnês de concertos, tanto na Espanha como pela Europa e América Latina. 

Ao mesmo tempo, continuou aperfeiçoando sua formação musical, fundamentalmente em Barcelona e nos conservatórios de Leipzig e Bruxelas; neste último obteve o primeiro prêmio de piano. 

Depois de seu casamento (1883), entrou em contato com o maestro Felipe Pedrell, pioneiro da música nacionalista espanhola, que despertou nele o interesse pela composição.



Em busca de novos conhecimentos musicais mudou-se (1893) para Paris, onde em contato com um grupo de músicos que estudavam profundas propostas de renovação estética, entre os quais se destacavam Claude Debussy e Gabriel Fauré extraiu sua técnica de composição, mantendo um estreito vínculo com a sensibilidade musical e o folclore de seu país. 

O resultado foi uma extensa e original produção musical composta de mais de 200 peças de diversos gêneros musicais: zarzuelas e dramas líricos, entre os quais se destaca Pepita Jiménez (1896); suítes orquestrais, como Cataluña; obras camerísticas e canções.

Seus melhores trabalhos, no entanto, foram as peças para piano, como Suite española e Rapsodia española, nas quais o espírito da música hispânica tradicional aparece refletido com magistral síntese. Sua principal obra nesse sentido seriam as 12 composições pianísticas da Suite Iberia (1906-1909), que, a par de sua enorme complexidade técnica, representou uma radical inovação dentro da música nacionalista espanhola. 

Morreu relativamente jovem, em plena maturidade criativa, em Cambo-les-Bains, França.


Leyenda by Albeniz in HD - Andres Segovia



Ana Vidovic plays Granada by Isaac Albéniz




Referências Bibliográficas

COSTA, Keilla Renata. "Manuel Francisco Isaac Albéniz"; Brasil Escola. Disponível em . Acesso em 23 de abril de 2017.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Yoio Cuesta

Yoio Cuesta é uma cantora de jazz espanhola, foi participante do The Voice Espanha e seu primeiro álbum é o Back to the 40's.





Ela é uma das cantoras mais conhecidas em Madrid, em parte por causa desse álbum que foi muito bem recebido pela crítica e público.

Espero que gostem.


terça-feira, 15 de novembro de 2016

McNally Jackson Bookstore




Muito se pensou que as livrarias independentes estariam extintas nessa época principalmente por causa de 10 anos de recessão e da queda de lucro das pequenas lojas causada pela força das grandes redes de livrarias e pelo uso do Kindle, saber que a McNally Jackson Books ainda existe é um milagre.

Aberta em 2004, oriunda de uma família livreira canadense com lojas em Winnipeg e Saskatoon, 

A loja foi inaugurada como McNally Robinson e em Agosto de 2008 se tornou McNally Jackson. 

Localizada na parte baixa de Manhattan.






A livraria é linda, iluminada e aberta, moderna mas aconchegante. Os assoalhos de madeira desgastados contrastam com o vidro e a escada em alumínio escovado que leva ao andar de baixo, com um lindo lustre que está localizado sobre a escada. 




A loja tem seu toque pessoal, cada expositor na livraria tem um pedaço de pano e flores, um toque que McNally aprendeu com sua mãe ao crescer. Da mesma forma, o papel de parede que decora o café é inteiramente composto de páginas da própria coleção de livros de McNally.





Me parece reconfortante sentar no café cercado por todas essas páginas de livros, lidas e marcadas com caneta pela proprietária, traduzindo assim a silenciosa conversa entre leitor e livro. 

Clique nas fotos para ampliar: 

















Máquina para imprimir os livros on demand
Endereço: 52 Prince St, New York, NY 10012, EUA
Site: www.mcnallyjackson.com

domingo, 13 de março de 2016

Béla Bartok



Béla Viktor János Bartók, compositor e pianista húngaro, que se destacou como pesquisador de música folclórica da Europa Oriental, morreu em Nova York em 26 de setembro de 1945. Bartók foi um dos fundadores da etnomusicologia, ciência que estuda a música em seu contexto cultural ou a antropologia da música (Merriam, 1964).

Bartók nasceu em 1881 em Nagyszentmiklós, região situada na confluência das culturas húngara, romena e eslovaca e tradicional foco de oposição aos Habsburgos. Sua mãe deu-lhe as primeiras aulas de piano aos cinco anos. Em 1888, com a morte do país, a família passou a viver em Vinogradiv, atual Ucrânia.

Com 11 anos, Bartók deu seu primeiro concerto: o allegro da sonata Waldstein, de Beethoven, e sua composição O Curso do Danúbio. A família se trasladou então a Presburgo, atual Bratislava, capital da Eslováquia, onde László Erkel lhe ensinou harmonia e piano.

Com 17 anos, ingressa na Academia de Música. Lá conhece Zoltan Kodály, com quem empreenderia uma recopilação da música folclórica húngara. Em 1903 compõe um extenso poema sinfônico, Kossuth, herói da revolução húngara de 1848.

A partir de 1905, aprofunda seus conhecimentos da música tradicional e canções folclóricas magiares.

Junto com Kodály percorre os povoados da Hungria e da Romênia, recolhendo num gramofone milhares de canções. Fizeram o mesmo com boa parte da Europa Central e até da Turquia. 

Pensava-se que a música folclórica húngara se baseava em melodias zíngaras, como as rapsódias compostas por Liszt. No entanto, Bartók descobriu que as antigas melodias húngaras se baseavam em escalas pentatônicas, a exemplo da música asiática ou siberiana.

Em 1905, adota Paris por motivo do concurso Rubinstein. Afasta-se da religião e se declara um “ateu profundo e sereno”. Em 1916, contudo, anuncia publicamente sua conversão ao unitarismo.

Em 1907, compõe Três Canções Populares Húngaras e no ano seguinte, Quarteto para Cordas. 

Em 1909, casa-se com Marta Ziegler, sua aluna de 16 anos. Em 1911, escreveu sua única ópera, “O Castelo de Barba Azul”, que só estreou em 1918, com a condição que apagasse do programa o nome do libretista, Bela Balazs, devido às suas ideias políticas. Bartok se negou.

Continuou concentrado em recolher a música folclórica da Europa Central, Bálcãs e Turquia. Durante a I Guerra Mundial compôs dois balés: “O Príncipe de Madeira” e “O Mandarim Maravilhoso”, duas sonatas para violino e piano, peças harmônica e estruturalmente complexas.

Bartók se divorciou de Marta em 1923 e se casou com uma estudante de piano, Ditta Pásztory, com quem fez uma turnê pela Europa interpretando concertos para dois pianos.

Em 1927-1928 compôs o 3º e 4º de Cordas, considerados uns dos mais importantes da música clássica. O 5º Quarteto retorna a uma linguagem harmônica mais simples. O 6º Quarteto foi escrito em 1939.

Entrementes, Hitler e a II Guerra Mundial iriam provocar impacto em sua vida. Bartók jamais se comprometeu com regimes fascistas. Opôs-se a Horty quando integrou a Hungria na esfera nazista. Mudou de editor quando este se afiliou ao nazismo. Pediu que sua música fosse incluída na “exposição sobre a música degenerada” patrocinada pelos nazistas em Düsseldorf.

Com o início da guerra, foi tentado a deixar a Hungria. Compõe então “Contrastes”, um de seus últimos grandes êxitos. Em agosto de 1940 muda-se para os Estados Unidos e pouco depois se alista na Força Naval norte-americana.

No entanto, Bartók sentia-se profundamente afetado pelo exílio. No começo foi bem recebido, porém recusou um posto de professor de composição na Curtis University embora tenha aceitado o título de doutor honoris causa pela Universidade de Columbia. Apesar de ser celebrado como etno-musicólogo e pianista, não era reconhecido como compositor e havia pouco interesse em sua música e a crítica era severa. Por outro lado, a Casa Baldwin requisitou um piano emprestado, o que o impediu de realizar concertos com sua mulher Ditta.

Em princípios de 1943, deu seu último concerto como intérprete quando os primeiros sintomas de leucemia já se manifestavam. Estimulado pelos colegas músicos norte-americanos recobra confiança e compõe o Concerto para Orquestra que lhe foi encomendado pelo maestro Serge Koussevitzki, a obra mais popular de Bartók. Animado, compõe ainda o Concerto para Piano nº 3 e o Concerto para Viola. A pedido do extraordinário violinista Yehudi Menuhin, compôs a Sonata para Violino Solo.

Com a libertação da Hungria, o país lhe ofereceu ser deputado. Aceitou, mesmo sabendo que não poderia assumir. Em setembro de 1945, morre em Nova York de leucemia. Foi enterrado no cemitério Ferncliff. Porém, em julho de 1988, seus restos foram transferidos para Budapeste a pedido dos filhos.

A música de Bartók está baseada em grande parte em suas investigações sobre o folclore e poderia dividir-se em dois grandes blocos, distintos quanto à concepção, todavia complementares entre si, chegando a alternar-se inclusive numa mesma obra em diferentes seções. São o sistema diatônico, fundado na música folclórica, seus modos e ritmos e na escala acústica; e o sistema cromático, influenciado também pelo folclore.




Fonte: Opera Mundi

Lamentações sobre meu velho robe ou conselho a quem tem mais gosto que fortuna

Por que não o guardei? Ele era feito para mim; eu estava afeito a ele. Ele moldava todas as dobras do meu corpo, sem incomodá­-lo; com ele, eu andava belo e pitoresco. O novo, rígido, pomposo, faz de mim um manequim. Não havia nenhuma necessidade minha a que sua complacência não se prestasse; pois a indigência é quase sempre industriosa.

Se um livro estava coberto de poeira, um pedaço do pano se oferecia para espaná-lo. Se a tinta seca recusava-se a fluir de minha pluma, ele punha o próprio flanco à disposição. Viam-se nele, traçados em longas linhas negras, os serviços frequentes que me prestara. Essas linhas compridas anunciavam o literato, o escritor, o homem que trabalha. Agora, tenho ares de rico desocupado; ninguém sabe quem sou.

Sob seu abrigo, eu não temia nem a inépcia de um criado nem a minha própria, nem as faíscas do fogo nem os respingos da água. Eu era senhor absoluto do meu velho robe; tornei-me escravo do novo.

O dragão que vigiava o velocino de ouro nunca esteve tão inquieto quanto estou. Vivo rodeado de preocupações.

O velho apaixonado que se entrega, pés e mãos atados, aos caprichos de uma jovem doidivanas diz da manhã à noite: Onde está minha boa, minha velha governanta? Que demônio me obce­cava quando a expulsei por esta aqui! E toca a chorar e a suspirar.

Eu não choro, não suspiro; mas a cada instante digo: maldito seja quem inventou a arte de dar valor ao pano comum, tingindo-o de escarlate! Maldito seja este traje precioso que agora reverencio! Onde está o meu velho, o meu modesto, o meu cômodo farrapo?

Meus amigos, guardai vossos velhos amigos. Meus amigos, temei a conquista da riqueza. Que meu exemplo sirva de instrução. A pobreza tem seus privilé­gios; a opulência tem seus incômodos.

Ó, Diógenes! Se visses teu discípulo sob o suntuoso manto de Aristipo, como não ririas! Ó, Aristipo, este manto suntuoso foi pago com tantas baixezas! Que comparação entre tua vida frouxa, rastejante, efeminada e a vida livre e rija do cínico esfarrapado! Abandonei o tonel em que reinava para servir a um tirano.

Mas isto não é tudo, meu amigo. Escuta as devastações do luxo, as consequên­cias de um luxo que vai se acumulando.

Meu velho robe era um entre os outros farrapos que me cercavam. Uma cadeira de palha, uma mesa de madeira, um tapete de Bérgamo, uma prateleira de pinho que sustentava alguns livros, umas tantas estampas esfumaçadas, sem moldura, pregadas pelos cantos ao tal tapete; suspensas entre as estampas, três ou quatro imagens em gesso formavam, junto a meu velho robe, a indigência mais harmoniosa.

Tudo está desafinado. Não há mais conjunto, não há mais unidade, não há mais beleza.

Uma nova governanta estéril que sucede outra num presbitério, a mulher que entra na casa de um viúvo, o sacerdote que substitui um sacerdote caído em desgraça, o prelado molinista que se apossa da diocese de um prelado jansenista não causam mais perturbação do que o intruso escarlate causou em minha casa.

Posso suportar sem desgosto a visão de uma camponesa. Esse pedaço de tecido grosseiro que cobre sua cabeça; essa cabeleira que cai desordenada sobre as faces; esses farrapos furados que mal a vestem; essa saia de baixo, ordiná­ria, que não chega à metade das pernas; esses pés nus e cobertos de lodo não têm como me ferir: é a imagem de uma condição que respeito, é o conjunto das desgraças de uma condição necessária e infeliz, que lamento.

Mas meu coração se subleva e, a despeito da atmosfera perfumada que a segue, tomo distância, desvio o olhar da cortesã: o toucado em ponto de Inglaterra, os punhos rasgados, as meias de seda sujas e os sapatos gastos me mostram a miséria do dia associada à opulência da véspera.

Assim seria meu domicílio, se o escarlate imperioso não tivesse submetido tudo a seu uníssono.

Vi o tapete de Bérgamo ceder a parede a que estava preso havia tanto tempo a um tecido de damasco.

Tinha duas estampas que não eram despidas de mérito, A queda do maná no deserto e Ester diante de Assuero; a triste Ester foi vergonhosamente expulsa por um ancião de Rubens, e A queda do maná foi dissipada por umaTempestade de Vernet.

A cadeira de palha foi relegada ao vestíbulo pela poltrona de marroquim.

Homero, Virgílio, Horácio, Cícero tiveram que aliviar o pinho frágil que se curvava sob sua massa, para se trancarem num armário em marchetaria, asilo mais digno deles que de mim.

Um grande espelho apoderou-se do bordo da chaminé.

As duas belas imagens em gesso que eu devia à amizade de Falconet e que ele mesmo reparara foram deslocadas por uma Vênus de cócoras – a argila moderna quebrada pelo bronze antigo.

A mesa de madeira ainda disputava terreno, abrigada sob uma multidão de brochuras e papéis empilhados ao deus-dará e que pareciam capazes de eximi­-la da injúria que a ameaçava. Um dia, seguiu seu destino, e, apesar de minha preguiça, as brochuras e os papéis foram se perfilar nos escaninhos de uma escrivaninha preciosa.

Funesto instinto das conveniências! Tato delicado e ruinoso, que desloca, que edifica, que derruba; que esvazia os cofres dos pais; que deixa as filhas sem dote e os filhos sem educação; que é causa de coisas tão belas e de males tão grandes. Tu, que em minha casa substituíste a mesa de madeira pela escrivani­nha preciosa e fatal, és tu que levas as nações à perdição, és tu que quiçá, um dia, levarás minhas coisas à ponte Saint-Michel, onde se ouvirá a voz rouca de um pregoeiro gritar: Vinte luíses por uma Vênus de cócoras!

O intervalo que restava entre o tampo da tal escrivaninha e a Tempestade de Vernet, logo acima, formava um vazio desagradável ao olhar. O vazio foi preen­chido por um relógio de pêndulo, e que relógio! Um relógio à Geoffrin, um relógio em que o ouro contrasta com o bronze.

Havia um canto vago junto à janela. Esse canto exigia uma secretária, que afinal obteve.

Outro vazio desagradável, entre o tampo da secretária e o belo busto de Rubens, foi preenchido por dois La Grenée.

Aqui fica uma Madalena do mesmo artista; ali, um esboço de De Vien ou de Machy – porque dei para gostar de esboços. E foi assim que o reduto edificante do filósofo transformou-se no gabinete escandaloso do publicano. Sou um insulto à miséria nacional.

Da minha mediocridade primeira, só restou um capacho. Esse tapete mesqui­nho não se enquadra em meu luxo, bem o sinto. Mas jurei e juro de novo que os pés de Denis, o filósofo, jamais pisarão uma obra-prima da Savonnerie, que guar­darei esse tapete à maneira daquele camponês que, transferido da choupana ao palácio de seu soberano, conservou consigo os tamancos.

Quando, pela manhã, coberto em suntuoso escarlate, entro em meu gabinete, basta baixar a vista para perceber meu antigo capacho; ele me recorda meu primeiro estado, e o orgulho se detém à entrada de meu coração.

Não, meu amigo, não: ainda não fui corrompido. Minha porta ainda se abre ao necessitado que se dirige a mim; ele encontra em mim a mesma afabilidade de antes. Eu o escuto, eu o aconselho, eu o socorro, eu o lamento. Minha alma não se endureceu; minha cabeça não se exaltou. Meu dorso é bom e sincero, como antigamente.

É o mesmo tom de franqueza; é a mesma sensibilidade. Meu luxo é de pouca data, e o veneno ainda não agiu. Mas, com o tempo, quem sabe o que pode acontecer? Que esperar de quem esqueceu mulher e filha, fez dívidas, deixou de ser esposo e pai e, em vez de depositar no fundo de um cofre fiel uma soma útil…

Ah, santo profeta! Erguei vossas mãos aos céus, rogai por um amigo em perigo, dizei a Deus: Se vês em teus decretos eternos que a riqueza corrompe o coração de Denis, não poupes as obras-primas que ele idolatra; destrói todas e leva-o de volta à sua primeira pobreza. Eu, da minha parte, direi aos céus: Ó Deus, eu me resigno à prece do santo profeta e à tua vontade! Abandono tudo em tuas mãos; toma tudo de volta; sim, tudo, exceto o Vernet! Ah, deixa-me o Vernet!

Não foi o artista, foste tu que o criaste. Respeita a obra da amizade, respeita a tua obra. Vê esse farol, vê essa torre adjacente que se ergue à direita, vê essa velha árvore que os ventos dilaceraram. Como é bela essa massa! Sob a massa escura, vê esses rochedos cobertos de verde. Foi assim que tua mão poderosa os formou; foi assim que tua mão benfazeja os cobriu. Vê esse terraço desigual, que desce do pé dos rochedos até o mar.

É a imagem das degradações que permitiste ao tempo exercer sobre as coisas mais sólidas do mundo. Teu sol brilharia de outro modo? Deus, se aniquilas esta obra de arte, dir-se-á que és um Deus ciumento. Apieda-te dos infelizes espalhados por esse litoral. Não te basta ter mostrado a eles o fundo dos abismos? Tu os salvaste apenas para perdê-los? Escuta a prece desse que te agradece. Auxilia aquele que reúne os tristes restos de sua fortuna. 

Fecha os ouvidos às imprecações daquele furioso: coitado, contava com ganhos tão vantajosos; já pensava no repouso e na aposentadoria; essa era sua última viagem. Cem vezes, durante o percurso, calculara com os dedos o montante de sua fortuna; já dispusera o uso que faria dela; e eis que suas esperanças são frustradas, mal lhe resta com que cobrir seus membros nus. Comove-te com a ternura daqueles dois esposos. 

Vê o terror que inspiraste a essa mulher. Ela te rende graças pelo mal que não lhe fizeste. Enquanto isso, o filho, jovem demais para saber o perigo a que foram expostos ele mesmo, o pai e a mãe, o filho se ocupa do fiel companheiro de viagem e amarra a coleira de seu cachorro. Concede graça ao inocente. Vê essa mãe que há pouco escapou das águas ao lado do esposo; não tremeu por si mesma, e sim pelo filho. Vê como o aperta contra o corpo, vê como o beija. Ó, Deus! Reconhece as águas que criaste. Reconhece-as quando teu sopro as agita e quando tua mão as aplaca. 

Reconhece as nuvens sombrias que havias reunido e que bem quiseste dissipar. Já se vão separando, já se vão distanciando, o brilho do astro diurno já renasce sobre a face das águas; esse horizonte rubro é presságio de calmaria. Como está longe, esse horizonte! Não confina com o mar. 

O céu vai além e parece girar ao redor do globo. Ilumina de uma vez esse céu; tranquiliza de uma vez esse mar. Permite que esses marinheiros lancem de volta ao mar o navio encalhado; secunda-os em seus trabalhos; dá-lhes forças, e deixa comigo o meu quadro. Deixa-o comigo, como a vara com que castigarás o homem vaidoso. Já não é a mim que visitam, que vêm escutar: é o Vernet que vêm admirar aqui em casa. O pintor humilhou o filósofo.

Ah, meu amigo, este belo Vernet que possuo! O tema é o fim de uma tem­pestade, sem catástrofe deplorável. As águas continuam agitadas; o céu, coberto de nuvens; os marinheiros agitam-se junto ao navio encalhado; os habitantes acorrem das montanhas vizinhas.

Que espírito tem esse artista! Não precisou de mais que umas poucas figuras principais para apresentar todas as circunstâncias do momento que escolheu. Como toda essa cena é verdadeira! Como tudo está pintado com leveza, facilidade e vigor! Quero guardar este testemunho de sua amizade. Quero que meu genro transmita-o a seus filhos, e estes aos seus, e estes ainda aos filhos que lhes nascerão.

Se vísseis o belo conjunto que faz este pedaço de cena; como tudo nele é harmonioso; como os efeitos se encadeiam; como tudo se faz valer sem esforço e sem afetação; como essas montanhas à direita são vaporosas; como esses roche­dos e as edificações mais acima são belos; como essa árvore é pitoresca; como esse terraço é iluminado; como a luz vai se degradando; como as figuras são bem dis­postas, verdadeiras, ativas, naturais, vivas; como elas despertam interesse; a força com que são pintadas; a pureza com que são desenhadas; como se destacam do fundo; a enorme extensão desse espaço; a verdade dessas águas; essas nuvens, esse céu, esse horizonte!

Aqui, o fundo é privado de luz e a frente é iluminada, ao contrário da técnica comum. Vinde ver meu Vernet, mas não o leveis de mim.

Com o tempo, as dívidas se quitarão; o remorso há de se mitigar; e terei um deleite puro. Não temei que o furor de empilhar coisas tome conta de mim outra vez. Os amigos que tinha, eu os tenho ainda; e seu número não aumentou. Tenho Laís, mas Laís não me tem.

Feliz em seus braços, estaria pronto a cedê-la a quem eu quisesse bem e a quem ela tornasse mais feliz que eu. E, para contar­-lhes um segredo ao pé do ouvido, essa Laís que se vende tão caro aos outros, essa mesma Laís não me custou nada.

Autor: Denis Diderot

Celebrizado por sua obra filosófica e pela edição da Enciclopédia, DENIS DIDEROT (1713-1784) foi um ver­sátil e prolífico escritor. O ensaio Carta sobre os cegos para o uso dos que veem (1749) e o diálogo O sobrinho de Rameau(176 1) estão entre as obras que, como esta sátira de 1768, são exemplos de seu estilo virtuoso e variado. “Lamentações sobre meu velho robe” inspirou o antropólogo americano Grant McCracken a criar o termo “efeito Diderot”, indicando a insatisfação existencial que o consumo pode gerar.